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livros-abertos

uma bibliografia de trazer por casa



Sábado, 20.08.16

"Número Zero" de Umberto Eco

numero_zero.jpg

Eco, Umberto. 2015. Número Zero. Gradiva. Lisboa

Da extensa bibliografia do professor Umberto Eco, conheço as obras mais emblemáticas, Como se faz uma tese e O Nome da Rosa. São, evidentemente, dois registos completamente diferentes. O primeiro é um verdadeiro manual de referência para qualquer estudante ou investigador e o segundo é o seu primeiro romance. Umberto Eco, o autor, convive bem com os diferentes registos de escrita, mantendo uma qualidade única, quase genial. Escreve, além disso, com uma pontinha de humor, uma ironia fina e inteligente, um sarcasmo crítico que não ofende; antes informa e nos faz pensar. Neste sentido, é sempre O professor. Não apenas neste sentido. Na verdade, os seus romances são também ensaios - tratam matéria especulativa que vai da filosofia à história, passando pela reflexão sobre a atualidade - que propõem leituras que são como teses académicas. É um exercício difícil, arriscado de que Eco se sai bem, para benefício dos seus leitores, em qualquer das circunstâncias, seus alunos. O pequeno volume Número Zero é disto um exemplo.

Comecemos pelo título: o número 0 é, com o número 1, um dos fundamentos do "digital", atmosfera onde se gera, guarda e organiza, toda a informação e conhecimento contemporâneos. É como se estivéssemos de um dos lados da dicotomia, esquerda ou direita, noite ou dia, face ou coroa, sabendo que o "outro lado" existe, ainda que nem sempre consigamos vê-lo, mas apenas intuí-lo. Sem certezas, como é próprio da Ciência que tudo questiona ou da Filosofia que sobre tudo especula. É neste espaço de incerteza, no equilíbrio entre o que é manifesto e no que permanece oculto, na penumbra, que se constroem as "narrativas-da-conspiração", fascínio de qualquer leitor ou ouvinte verdadeira expressão do que é uma "obra aberta" (i.e. de leituras várias).

Estamos, pois, na "era do digital" na clivagem com o "analógico" e enquanto os grandes grupos editoriais consideram deixar de publicar em "suporte-papel" eis que o Comendador, rosto invisível de uma forma de Poder (provavelmente a expressão de poder mais recente, contemporâneo) contrata toda uma equipa de jornalistas para fundar um jornal. O "número zero" é a edição fundadora, aquela que o público não conhcerá mas servirá de modelo orientador para toda a equipa redatorial e editorial. E não surpreende que os propósitos deste "novo" periódico não sejam propriamente informar mas antes contribuir para o sustento de um exercício de poder.

O Número Zero é uma ficção que evolui no contexto do corpo redatorial de um semanário (?) que jamais será publicado, pago por um Líder sem rosto num tempo em que os suportes informativos digitais desafiam a viabilidade económica das publicações em papel. Nasce com o propósito de desvirtuar a realidade para oferecer uma leitura enviesada conveniente à manutenção do poder e é, por fim (ou no seu âmago) um ensaio sobre a impossibilidade de, alguma vez, conhecermos a verdade histórica sobre o que passou. O que sempre teremos, incessantemente, são hipóteses a testar para tentar responder a uma pergunta - Porquê? - metodologia de investigação utilizada por todo e qualquer académico.

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por JNobre



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