Terça-feira, 04 de Maio de 2010

Versão original: Sábado, 18 de Julho de 2009

 

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Livros Abertos

Sim, a primeira ideia é essa: escrever sobre os livros que “permanecem” abertos, cuja "leitura" não concluí. Mas também sobre os que um dia foram “abertos” sem que jamais os tenha realmente “fechado”. Fechar-se-á, alguma vez e em definitivo, um livro? É bem mais provável que a sua marca nunca nos abandone, como o perfume de um relacionamento. Ler tem, aliás, os seus perigos: perda de tempo, fadiga dos olhos, alienação intelectual, degradação mental ou, nos casos mais extremos, demência! Não por acaso, de tempos a tempos, os livros são, eles mesmos, o combustível da pira redentora, acesa pelos detentores da verdade, para livrar a humanidade dos males da cultura! Felizmente, haverá sempre livros abertos e muitos mais por abrir. E esses que alguma vez abrimos permanecerão para sempre “abertos” na mente de quem como nós arriscou um dia virar-lhes o rosto, a partir da lombada.

 

Por fim, acho que haverá ainda espaço e oportunidade para editar textos que não chegarão a ser um livro fechado porque permanecem abertos na formulação do que vou escrevendo.

Os propósitos

Nos intervalos das nossas vidas, é bom parar para pensar. A sós ou com um Amigo que pode ser Alguém ou alguma coisa, como um Livro. Mas a leitura, a reflexão e a escrita são coisas indissociáveis por isso, dificilmente consigo ler sem ter por perto um caderno onde faça apontamentos das ideias que surgem ou das passagens de leituras que pretendo fixar.
Aliás, como está escrito no sub-tútulo do “mondim: leituras”, tudo pode ser lido, isto é, tudo é susceptível de interpretação pelo que, escolher uma leitura, reflectir sobre o que se lê e escrever sobre isso é constituir um repositório pessoal de ideias e princípios susceptíveis de influenciar o comportamento do leitor e, de modo menos evidente, dos que o rodeiam. Decidi-me pois a registar, de onde a onde e de quando em quando, resultados pessoais das leituras que faço, dos livros abertos que se vão espalhando pela casa ou pelo meu local de trabalho. Poderia chamar-se “bibliografia”, mas não poderia deixar de ser “de trazer por casa” seja na sua dimensão seja nos seus propósitos.

A metodologia

Luís Delgado, jornalista, administrador da Lusomundo, afirma ter em estado permanente de leitura cerca de 25 livros. Quando o ouvi pela primeira vez, isto dizer, como que se apagou em mim a má-consciência que há anos me atormentava, por não ser um leitor disciplinado. Já então, como agora, é muito comum começar a leitura de um livro, desde a primeira página (!), com grande entusiasmo e determinação sem que vislumbre quando e se alguma vez o terminarei. Na maior parte dos casos, ler um livro pode levar-me anos. Os livros estão a meu lado, como um amigo ou um familiar, todos os dias, independentemente das horas, boas ou más. Viajam comigo (o que chega a indispor uma parte da família) e fico incomodado quando os julgo perdidos quando inadvertidamente pousados aqui ou ali. Chego a admitir que pode haver em mim uma pulsão que me leva a lamentar pelo fim de uma relação e pela nostalgia dos começos pelo que, adiar o fim de um livro, é adiar o fim de uma viagem a dois – eu e o autor – com todo o universo de paisagens, ambientes e personagens que essa viagem nos proporciona. Quando se trata de ensaios, livros de estudo, então a viagem é iniciática. Aprendo com a experiência do outro, sempre diferente, sempre único, sempre fascinante.


JNobre às 08:00
Domingo, 20 de Setembro de 2009
Poderá falar-se de “um texto” se não houver “um leitor”? Isto é, bastará que algo seja “escrito” para que “exista” como texto, ou este apenas se revela quando é lido por Alguém? Esta é uma daquelas questões que a cada passo, talvez fosse melhor dizer “a cada palavra escrita”, me ocorre e me suscita a vontade de dissertar sobre. Voltou a acontecer-me a propósito do (quase genial) título e desígnio desta obra de George Steiner: “Os Livros Que Não Escrevi”.
Um livro não escrito é mais do que um vazio, diz Steiner numa brevíssima introdução onde explica que cada um dos sete capítulos que compõem Os Livros Que Não Escrevi (2008, Editora Gradiva) é um ensaio seminal sobre um livro que gostaria de ter escrito e sobre os motivos porque não o fez. Não é apenas a ironia deste jogo entre o que é dito, pela escrita, e o indizível (o que não pôde ou não se quis dizer). Há uma ironia escondida no título porque, apesar de “não escrito”, este livro existe. Na verdade, contém sete projectos para outros tantos livros, que surgem como intenção, como algo que seria interessante que tivesse sido feito e se ficou por um pequeno ensaio. No final de cada um desses ensaios, é-nos revelado porque é que não chegaram a livro. Parafraseando Steiner, sabe-se que a negação é algo mais que a negação da possibilidade porque pode ser determinante, e comportar consequências que não podemos antecipar ou avaliar com acerto. O livro não escrito é [aquele] que poderia ter feito a diferença.
Talvez, por tudo isto, não valha a pena escrever sobre aquilo que, não existindo, nenhuma diferença fará que venha ou não à luz. Já me referi ao “Direito de Não Ler” decretado por Daniel Pennac, proponho agora uma reflexão sobre “O Direito de Não Escrever”, neste tempo em que a actualização dos “blogs” é uma exigência quase totalitária que se nos impõe, até ao insignificante, num jogo de sedução (e de poder) entre o Autor e o Leitor.

 

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JNobre às 19:43
Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
“Como Um Romance”, de Daniel Pennac (1993. Colecção “Pequenos Prazeres”. “Edições Asa”) é mais um livro pequeno, leve e fresco, que se lê quase distraído. Quando o li, pouco tempo depois do lançamento da edição portuguesa, sabia que a principal intenção do autor era avançar com um conjunto de sugestões que, em última análise, se destinariam aos pais e educadores, tendo em vista conquistar as crianças e os adolescentes para o exercício da leitura, sem traumas. Mas, de entre as intuições nele contidas, a marca mais sensível que me ficou foi a sua proposta para o estabelecimento de “Os Direitos Inalienáveis do Leitor”. Todos fazem sentido e arrumam de vez a ideia da obrigatoriedade de ler, uma vez que o primeiro direito “do leitor” será precisamente “O Direito de Não Ler”. Seguem-se outros, não menos iconoclastas, de entre os quais destaco os que me são mais convenientes: “O Direito de Saltar De Livro Em Livro” e “O Direito de Não Acabar Um Livro”. Este último parece-me particularmente feliz por nos redimir, em definitivo, do facto de termos alguma vez começado uma qualquer leitura que, por uma razão ou outra, decidimos, ou fomos obrigados a, abandonar. São pois Direitos que nos assistem: saltar de um livro a outro e/ou não concluir uma leitura.
Reflectindo hoje, creio que o mesmo conjunto de “regras” e “princípios” se ajusta absolutamente ao mundo dos “blogs”, seus autores e “posts”, desde logo porque “saltar” de um texto a outro é o conceito estruturante do hipertexto. Aceite esta ideia, fica mais fácil, para quem escreve e para quem lê (ou não lê), que assim se estabeleça uma “relação sem compromisso” o que, como toda agente sabe, é um bem contemporâneo que tantos pretextos tem oferecido a legisladores, agitadores, políticos em exercício e a comentadores, profissionais ou amadores.
 


JNobre às 13:00
Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

No dia em que Umberto Eco proferiu a sua conferência De Bibliotheca, a 10 de Março de 1981, eu completava o meu 23º aniversário e estava a poucos meses de terminar a parte escolar do meu curso de Arquitectura, por isso, alguns dos primeiros livros que arrumei, com alguma ordenação, terão sido precisamente os livros técnicos. Quando, porém, o número de livros por ler começaram a superar os já lidos ou consultados, percebi, não sei exactamente quando nem porquê, que esta arrumação não se destinaria tanto a conservar os livros já lidos mas antes aqueles que alguma vez gostaria de ler. É provável que Umberto Eco tenha dado uma ajuda decisiva com a publicação de “A Biblioteca” (1991. Edição portuguesa da “Difel, Difusão Editorial, L.da”), texto integral da conferência acima referida. Disse, então, Eco que um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai a uma biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade, a sua principal função, pelo menos a função da biblioteca de minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava. Vale a pena considerar todo o discurso desta conferência. Foi um texto inspirador na fase primeira da concepção da Biblioteca Municipal de Mondim de Basto e, entre outros muitas descobertas, como se de um pequeno guarda-jóias se tratasse, poderemos encontrar a descrição da biblioteca de “O Nome da Rosa”, a ficção mais celebrada de Umberto Eco, que tem a sua versão cinematográfica com Sean Connery no principal papel. Aqui se percebe que uma biblioteca não é um simples Arrumo, Arquivo, Acervo ou Repositório mas, antes, um equipamento que convoca, mais do que qualquer outro, uma atitude activa por parte do utilizador. De outro modo pouco terá para oferecer. O que se espera do edifício e dos seus gestores é que precisamente saibam motivar, acolher e enquadrar a curiosidade adolescente que vai para lá da maturidade e será, pelo menos por enquanto, o único elixir da longa-vida realmente viável.

 

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JNobre às 20:00
Terça-feira, 23 de Outubro de 2001

Se o não registar aqui, dentro de um mês, dentro de um ano, daqui a cinco anos, pouco ou nada saberei da poesia deste dia, do seu conforto, da sua luz.  Foi este o dia seguinte ao meu teste-diagnóstico na nova escola de inglês em MDB. O dia em que pude pedir a Jane Richards que me preparásse para exames de creditação. Tentarei ir até onde puder. O topo é o proficiency . Porque não seria capaz ? Já que falhei o Mestrado este ano...



JNobre às 00:00
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